A crise financeira mundial agora atinge a economia real. A recessão americana se revela com a bancarrota de empresas e no aumento do desemprego. Diante da ameaça de depressão, economistas (como Paul Krugman) recomendam farta expansão dos gastos públicos. Os EUA podem se dar ao luxo de tomar o remédio keynesiano, porque não existe fuga de capitais do paÃs. O dólar tem se valorizado. Não há preocupação com a inflação. Ainda mais importante, o desequilÃbrio fiscal não é estrutural, mas advindo de uma guerra que chega ao fim e o pacote fiscal anticÃclico incluiria aumento temporário de gastos que não criariam rigidez orçamentária no futuro. Mesmo assim, Ben Bernanke, presidente do Fed, adverte que o tamanho do déficit público impõe limites a medidas fiscais para reanimar a economia amricana
Os estragos da turbulência na economia brasileira apareceram em outubro. Empresas já promovem férias coletivas. Postergam investimentos. . A indústria automobilÃstica, com peso de 5,4% no PIB, prepara-se para crescimento zero em 2009. Ao contrário do governo americano, o brasileiro não pode adotar a medicina keynesiana, apesar do colchão de reservas.
No passado, a desvalorização cambial advinda de choques externos criava pelo menos dois graves problemas para o governo brasileiro: impacto inflacionário e aumento da relação dÃvida pública/PIB (por causa da parte da dÃvida indexada ao dólar). O BC se via obrigado a aumentar a taxa de juros para controlar o efeito inflacionário da desvalorização. Essa medida, por sua vez, também contribuÃa para novo aumento da dÃvida pública. Para manter a confiança na solvência do setor público, o governo aumentava o superávit primário. Tanto a polÃtica monetária quanto a fiscal multiplicavam o impacto contracionista do choque externo.
No presente, ao contrário do que ocorria no passado, a desvalorização do real não se traduziu num aumento da dÃvida pública, mas em lucro, que criou margem para ações de socorro financeiro emergencial. As reservas internacionais altas serviram para amortecer parte do choque da desvalorização, que trouxe consigo perdas para empresas que especularam no mercado de derivativos de câmbio.
As reservas dão ao BC espaço para esmorecer flutuações bruscas da taxa de câmbio, mas não a capacidade de evitar a tendência de valorização do dólar, cujo impacto inflacionário já transparece nos Ãndices de preço. O IGP-DI subiu de 0,36% para 1,09% de setembro para outubro e o IGP-M, 0,80% em novembro. As expectativas de inflação também subiram (segundo o “Boletim Focus”) para 6,4% neste ano. A projeção para 2009 avançou pela quarta semana consecutiva para 5,2%.
A inflação em alta, apesar da redução do ritmo de atividade, impede uma polÃtica agressiva de redução da taxa de juros, que poderia tanto minorar a queda no nÃvel de atividade quanto abrir espaço para uma polÃtica fiscal mais expansionista. Não pode. O governo já contratou aumentos de salários para os próximos anos, quando a receita dos impostos deverá acompanhar a queda no ritmo de atividade. A despesa com servidores federais em 2008 em relação a 2007 deve subir 10% acima da inflação. Aumentos já concedidos a servidores e mecanismos de reajuste do piso previdenciário continuam a empurrar a fatia de despesas obrigatórias.
Enquanto as reservas permanecerem maiores do que a dÃvida pública externa, o governo tem, por algum tempo, receita de lucros do BC para ajudar a reduzir o aumento do déficit fiscal e da dÃvida pública. Mas, mesmo se o governo revisse para cima a meta de inflação, não poderia evitar uma redução do crescimento. O crescimento mais alto da demanda interna em relação à externa acarretaria déficits comerciais e em conta corrente difÃceis de financiar, pois (segundo o “Boletim Focus”) o investimento externo deve despencar em 2009.
É possÃvel que o Banco Central só tenha a oportunidade de diminuir os juros básicos quando o risco-paÃs começar a cair. Isso não deve acontecer antes que a situação americana permita um aumento da liquidez internacional. Ao mesmo tempo, para preservar a confiança no Brasil, será preciso atravessar a crise econômica sem aumentar a dÃvida pública no ano que vem, nem elevar impostos nos anos seguintes. Para tanto, o governo precisa rever o orçamento. Para preservar as obras do PAC, o ritmo de crescimento da folha de pagamentos do funcionalismo público nos três Poderes precisa de um limite legal.
A licença para gastar seria um pacto faustiano: a troca de um ganho de curto prazo por um grande sacrifÃcio no longo. Você se lembra do Dr. Fausto, respeitável acadêmico alemão, que, insatisfeito com os limites do conhecimento tradicional, contratou os serviços de Mefistófeles? A idéia da venda da alma em troca do conhecimento inspirou a peça de Marlowe, o livro de Goethe e duas óperas importantes: “A Danação de Fausto”, de Berlioz, e “Dr. Atomic”, de John Adams (sobre Oppenheimer, o Fausto americano). Ambas fazem parte desta temporada no Lincoln Center. As montagens estão espetaculares, pois usam os mais modernos recursos da tecnoalquimia de projeções computadorizadas. Você não vai a Nova York? Ora, as óperas estarão disponÃveis no site da Metropolitan Opera House. Esqueça a crise por um momento. Ela será farelo dentro de alguns anos. Mas, por milênios, os homens ainda ouvirão Berlioz. E vão cantar e dançar como sempre fizeram através dos séculos.
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